Francesco Canepa, John O’Donnell
Com a tinta ainda fresca do mais recente lote de tarifas do presidente dos EUA, Donald Trump, alguns já estão se preparando para o que pode vir a seguir em seu esforço para forçar os parceiros comerciais a cumprirem suas ordens.
Como epicentro do mundo financeiro e emissor da moeda de reserva global, os Estados Unidos têm uma série de alavancas que Trump pode usar para coagir outros países, desde cartões de crédito até o próprio fornecimento de dólares a bancos estrangeiros.
Embora a utilização dessas armas não convencionais tenha um grande custo para os próprios EUA e possa até mesmo sair pela culatra, os observadores dizem que esses cenários apocalípticos não devem ser descartados.
Isso seria particularmente verdadeiro se as tarifas não conseguirem reduzir o déficit comercial dos EUA com o resto do mundo —um resultado que muitos economistas consideram plausível, dado o fato de que o quase pleno emprego nos EUA levou a uma profunda escassez de mão de obra.
A China anunciou a sua retaliação nesta sexta-feira (4), fazendo com que as ações dos EUA caíssem ainda mais, aprofundando a crise.
“Posso imaginar que o Sr. Trump… fique frustrado e tente implementar ideias malucas, mesmo que a lógica para elas não exista”, disse Barry Eichengreen, professor de economia e ciência política da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
ACORDO EM MAR-A-LAGO
O plano não tão secreto do governo dos EUA é reequilibrar o comércio enfraquecendo o dólar. Uma maneira de fazer isso seria alistar bancos centrais estrangeiros em um esforço coordenado para revalorizar suas próprias moedas.
De acordo com um artigo escrito por Stephen Miran, escolhido por Trump para presidir seu Conselho de Assessores Econômicos, isso pode acontecer como parte de um acordo de Mar-a-Lago, uma referência ao Acordo Plaza de 1985, que limitou o dólar, e ao resort de Trump na Flórida.
O documento, de novembro, sugeriu que os Estados Unidos usariam a ameaça de tarifas e a atração do apoio à segurança dos EUA para persuadir os países estrangeiros a valorizarem suas moedas em relação ao dólar, entre outras concessões.
Mas os economistas estão céticos quanto à possibilidade de qualquer acordo desse tipo ganhar força na Europa ou na China, pois a situação econômica e política é muito diferente de quatro décadas atrás.
“Acho que esse é um cenário realmente improvável”, afirmou Maurice Obstfeld, membro sênior do Peterson Institute for International Economics.
Obstfeld argumentou que as tarifas já foram impostas, eliminando seu uso como ameaça, e que o compromisso dos Estados Unidos com a segurança global foi enfraquecido por sua ambiguidade em relação à Ucrânia.
Ele acrescentou que é improvável que os bancos centrais da zona do euro, do Japão e do Reino Unido cedam a um acordo que os forçaria a aumentar as taxas de juros e arriscar uma recessão.
E a economista-chefe do TS Lombard, Freya Beamish, avaliou que a engenharia de um yuan mais forte também iria contra a necessidade da China de reflacionar sua economia em dificuldades.
Mesmo no Japão, onde o governo interveio repetidamente no mercado de moedas nos últimos anos para sustentar o iene, as lembranças dos 25 anos de deflação que só recentemente terminaram podem atenuar qualquer entusiasmo por uma forte valorização do iene.
APOIO DO DÓLAR
Se não for possível chegar a um acordo, o governo de Trump pode se sentir tentado a usar táticas mais agressivas, como aproveitar o status do dólar como a moeda em que o mundo negocia, economiza e investe.
Isso pode assumir a forma de uma ameaça de fechar as torneiras do Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA) para os bancos centrais estrangeiros, o que lhes permite tomar dólares emprestados em troca de garantias em sua própria moeda, de acordo com Obstfeld e alguns supervisores e banqueiros centrais.
Essa é uma fonte essencial de financiamento em tempos de crise, quando os mercados monetários entram em colapso e os investidores se retraem para a segurança do dólar.
A retirada dessa fonte perturbaria um mercado multibilionário de crédito em dólares fora dos Estados Unidos e atingiria de forma particularmente dura os bancos do Reino Unido, da zona do euro e do Japão.
É claro que essas chamadas linhas de swap estão firmemente nas mãos do Fed e Trump nunca deu sinais de que queria assumir o controle da poderosa instituição monetária.
Mas suas recentes medidas para substituir funcionários importantes, inclusive em agências reguladoras, deixaram os observadores inquietos.
“Não é mais inconcebível que, em uma negociação maior, isso possa servir como uma ameaça nuclear”, comentou Spyros Andreopoulos, fundador da consultoria Thin Ice Macroeconomics.
Ele acredita que, com o passar do tempo, esse tipo de ação corroeria o status do dólar como uma moeda global confiável.
CARTÕES DE CRÉDITO
Os Estados Unidos têm outro trunfo na manga —seus gigantes do setor de pagamentos, incluindo as empresas de cartões de crédito Visa e Mastercard.
Embora o Japão e a China tenham, em graus variados, desenvolvido seus próprios meios eletrônicos de pagamento, as duas empresas dos EUA processam dois terços dos pagamentos com cartão feitos na zona do euro, composta por 20 países.
Os pagamentos com aplicativos de celular, dominados por empresas americanas como Apple e Google, representam quase um décimo dos pagamentos de varejo.
Essa mudança colocou os europeus em desvantagem em um vasto mercado, avaliado em mais de 113 trilhões de euros (US$ 124,7 trilhões) nos primeiros seis meses do ano passado.
Se Visa e Mastercard fossem pressionadas a interromper os serviços, como fizeram na Rússia logo após a invasão da Ucrânia, os europeus teriam que usar dinheiro ou transferências bancárias complicadas para fazer compras.
“O fato de os EUA terem se tornado hostis é um grande revés”, disse Maria Demertzis, economista-chefe para a Europa do think tank Conference Board.
O Banco Central Europeu afirmou que isso expôs a Europa ao risco de “pressão e coerção econômica” e que um euro digital pode ser uma solução.
Mas os planos para implantar essa moeda digital ficaram atolados em discussões e podem levar anos para serem introduzidos.
As autoridades europeias estão analisando como poderiam responder às ações de Trump, mas têm receio de desencadear uma nova escalada.
Eles poderiam impor suas próprias tarifas ou recorrer a medidas mais drásticas, como limitar o acesso dos bancos dos EUA à União Europeia.
Entretanto, tomar medidas tão radicais pode ser difícil devido à influência internacional de Wall Street, bem como ao risco de uma reação contra os credores europeus que fazem negócios nos EUA.
Ainda assim, alguns executivos de bancos internacionais disseram à Reuters que estavam preocupados com a ameaça de uma reação negativa da Europa nos próximos meses.